sexta-feira, 22 de outubro de 2010

a saudade e outras coisas mais
intercaladas a inóspitos colóquios
sobre sentimentos alheios

(a mosca pousa ao longe)

e as mãos que balançam
e as vozes que se rasgam
e os beijos que se cospem

(a mosca permanece imóvel)

olhos sem destino
vozes nonsense
olhos bocas rasgos
sopros nojos incógnitos
sentimentos balanceados
dietas e suplementos

(a mosca rodopia em sua órbita re-pousa volta)

mãos entrelaçadas em laço algum
sonhos compartilhados em lugar nenhum
vistas cegas músicas surdas
calor gélido putas puritanas
mulheres sem vida homens da vida
sexos grotescos desencontrados
desavisados escancarados
em bocas fétidas em lábios secos

(a mosca voa mais um pouco e circunda os transeuntes)

sonhos retóricos desvairados
mordaças de sons insuportáveis
louvados pedaços restantes
da carne minha da carne tua
densos partidos repartidos
esquecidos relembrados e esquecidos
eis que a mosca sim a mosca
aquela mosca os encontra
e dá-se assim o nosso valor
às moscas
A menina. A flor. Elementos constitutivos de diferentes cenas, porém cenários iguais.
A menina contempla, distante. A flor é arrebatada pelo vento.
A menina sonha com o que está além de si. A flor conforta os pensamentos.

Os dois elementos vistos como aspectos meditativos apoiam-se um no outro, sem a necessidade do tato (e eis que me questiono da bestialidade humana por necessitar tanto do calor de um corpo sobre o seu para que se sinta seguro).

O que une estes dois seres são pequenas linhas invisíveis traçadas no ar: a do olfato e a da visão. Talvez a flor não se dê pela menina que a encara (não sei, talvez se dê: ignoro COMPLETAMENTE o que se passa na vida de uma flor). Essas são sensações de conforto que vão além da necessidade primária. Vão além do que é físico. Vão além do que é previsível.

E essa reciprocidade poética durará enquanto houver essa aliança contemplativa entre cada ser.

Até o primeiro contato...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O pêndulo atemporal que permeia as relações de certos seres; a mecânica ilegível do funcionamento de cada um de nós; a similaridade poética de todos os aspectos conflituantes e não conflituantes; a importância impalpável de certos ares compartilhados; o refúgio caloroso que o toque voluntário e consciente proporciona...

A proposta deste contrato efetuado pelo tempo (e por todos os elos a que ele se dispôs de construir) é de, simplesmente, bendizer à cumplicidade: saber do bem das vitórias, das picuinhas mal resolvidas, dos abraços consoladores, dos sorrisos vazios (e recheados) de significados, enfim, das pequenas coisas que vêm a possuir importância significativa mesmo que com seu diminuto tamanho.

Pois o que nos resta é absorver o que já fora absorvido para que se possa nutrir o que há de vir. As passagens não precisam permanecer empoeiradas sobre nossas estantes memoriais... Elas precisam ser exercitadas! E para isso há a boa cerveja, o bom cúmplice, o bom entendimento entre atritos de intelecto e coloquiais idas e vindas à Cidade Baixa e aos terrenos que nos são prediletos. O pisar em verdadeiro é exigência mínima para que se mantenham os elos existentes, e eles são sucessivamente bem sucedidos.

O que se constrói assim não se perde por pouco. Nem mesmo por muito. O que o destino reserva são sempre incógnitas ponderantes e confesso que, algumas, desnecessárias. Mas isso não impede aquela sensação de segurança sobre os aspectos seguintes ao presente. Isso não impede o sentimento de que aquelas sensações consoladoras (o aperto de mão, o carinho, a trova de bar, o céu e o pensamento compartilhados) sejam ponderadas com segurança.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Nada mais casual que a passagem do tempo
Nada mais permanente que a existência do tempo
Nada mais atemporal que nossa existência
Tudo o que pode ser marca neste pequeno grão de areia
Não condiz com passagem alguma
É apenas uma marca
E outra lembrança

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Minha ironia
Trescala
Um beijo inóspito
Hostil
Sutil
Devaneio
Meu
Teu
E minha mão
Acena
Um adeus
A linha entre o sono e a morte
Também é uma demência relativa.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A linha que separa o hoje do amanhã
É uma demência relativa.