sábado, 12 de fevereiro de 2011

por aqui solitário vejo as coisas passarem uma a uma intocáveis versáteis não se entende não se quer entender pequena sombra atrita paira inconsciente no ar pequena sombra sem dono pés fatigados cabeças embriagadas sonhos abandonados sonhos abandonados em ruas abandonadas pessoas observações relutância opulência abismos machucados feridas abismais me olho no espelho como um animal observa seu próprio reflexo espanto cuidadoso as necessidades desnecessárias as surpresas planejadas adjetivos que pairam incoerentes sem rumo um olhar esguio em um reflexo de sol a luz nas folhas o pequeno sonho da pequena sombra o restante de um todo um todo de um resto uma espiral afivelada um cochicho de socorro a luz da lua as ruas silenciosas o silêncio inquieto a morte a noite pensamentos preposições jogos de palavras palavras de jogadas miseráveis apostas com o destino perder-se em si perder-se em ti perder-se morrer com poucas necessidades insatisfeito a luz do sol meu silêncio tuas palavras minhas palavras reciprocidade o mesmo minuto morre num suspiro o mesmo suspiro morre em um beijo um beijo qualquer ou não anos cidades longe demais perto demais num suspiro qualquer mãos entrelaçadas perdidas num lugar qualquer longe demais

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Talvez não seja perspicácia. A similaridade dos fatos não me significa muito. Na verdade, significa! Mas sou tolo o suficiente: alimento descrenças... Talvez não seja perspicácia...

Quintana já dizia: tudo a se escutar aqui são os passos de minha futura assombração. Mas há uma doce sensação de um irrefutável conforto quando se pensa no ar... É a saudade e seus devaneios! Mas no ar...

Tudo permanece igual. Há uma distância e nada mais. Tudo permanece nitidamente igual. Teu olho azul penetrando algum espaço qualquer. Meu olho na eterna curiosidade e numa contraditória indiferença das coisas. Mas ele busca o teu. Ele sabe onde encontra-lo.

Ou na delicadeza do teu profundo céu... Ou na imensidade de minha solidão.

domingo, 2 de janeiro de 2011

É das incertezas que surgem as mais pequenas certezas
Que podem ser incertas à medida que se tornam certas
E que se tornam relativas ao meu próprio pensar.
O que pode ser certo senão o que me é certo?

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

How happy is the blameless vestal's lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray'r accepted, and each wish resign'd.
Alexander Pope, Eloisa to Abelard



Nada mais indispliscente que a indispliscência comedida,
A tristeza desmedida, uma coerência indeferida,
Uma lembrança outorgada, uma linha esquecida,
Uma esfera, uma casa e mais uma medida.

Duas mãos, duas metades, dois pedaços vazios
Do que veio e se foi e partiu, entre rios,
Entre casas, entre caras, qualquer um, cios;
Um marasmo, alguns mortos e mais alguns fios.

Uma palavra, um silêncio, o que nos foi tido
O que se quer, que se tem, que se faz entendido
Um prazer, algum corte e um sonho ferido
Que repousa em mãos, tão mal protegido.

E no fim, em silêncio, há algum nó
Por ser, enfim, o que vem a ser pó
Um orgulho, despeito e alguma dó
De viver consigo... E somente só.



sexta-feira, 26 de novembro de 2010

QUARTO DO PIANO

era um cômodo abandonado.
ali se situava a alegria daqueles aqui recebidos.
crianças corriam e pulavam constantemente
ao som de notas pueris intercaladas à poeticidade
de um sol poente a nos conceber as delícias das noites
festivas (arrebatadas por um lirismo daqueles mais românticos).
era ali que se resumia o significado de espontâneidade
e, talvez, de alegria.
e o tempo deixa seus efeitos...
as páginas amareladas, as pautas ilegíveis,
a atuação de algumas traças e o abandono.
restam memórias refletidas na sombra
do mesmo sol, das mesmas tardes,
das mesmas saudades
embaladas em doçura e liberdade.
e assim se vai o sol novamente,
ao som daquelas mesmas pessoas
ao som daquelas mesmas músicas
ao som daquele mesmo piano.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

TRÊS TOMOS DE ORNAMENTOS NÃO NECESSÁRIOS

I
as fezes enegrecidas com a considerável ação do tempo

(às vezes me consideras escória)
(eu a considero como me convém)

não fossem as duas linhas serem paralelas
não fosse a formação incongruente das palavras
os resquícios de solstícios
as alusões tão penetrantes e pouco intuitivas
e uma que outra circunstância atenuante

(inquieta em meus flagelos )
(inquieta por sua quietude)

um apego familiar e desconfortável por si só
por ser o que se é e não o que se deve ser
e sendo o que se deve ser nada vem a ser
pois nada se constrói no que não se é
realmente e solenemente

(uma inquieta falácia)
(uma que outra, inutilmente)



II
bloquinho perplexo
jogo de nexo
e uma vantagem
uma sentença
capciosa
de se ser
de se pensar
ser
um ser


III
pois é com minha considerável inutilidade
que construo o anagrama das palavras
pra ver em quais cabem os sentidos já transvirados
de uma turva inexistência existencial
(tão cabal em seus máximos detalhes - que não há-)